segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A canção do Africano

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,Junto ao braseiro,no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no coloa embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez p'ra não o escutar!

´´Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem:
Esta terra é mais bonita.
Mas à outra quero bem!

´´O sol faz lá tudo em fogo.
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

´´Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...

´´Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro``.

O escravo calou  a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P`ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser,

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

( Castro Alves)

Reflita como você é uma pessoa sortuda! Ao contrário da escrava do poema que nem uma soneca pode tirar por medo de perder seu filhinho...

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